Quando vamos planejar uma viagem, geralmente planejamos quanto vamos gastar, não é mesmo? Estudamos os custos da passagem, hospedagem, procuramos a melhor taxa de câmbio, pesquisamos os custos da alimentação no destino, o preço dos passeios, entradas em eventos e ainda colocamos uma margem para eventuais imprevistos. O motivo é simples: se o custo real for acima do esperado a viagem pode se tornar uma grande dor de cabeça.

Na construção civil, existe uma cultura muito reticente em relação ao orçamento de obra. De maneira geral quem constrói opta pela conhecimento adquirido em obras anteriores e custos já praticados. A crise econômica que o Brasil enfrenta fez com que muitas construtoras do país se deparassem com uma redução das suas margens de lucro e começassem a entender a importância de melhorar o controle financeiro de seus empreendimentos. Daí a importância do orçamento de obras.

O trabalho de orçamento de obra é uma relação simples de quantidades e preços unitários. Sua elaboração, todavia, é complexa. Tradicionalmente as quantidades são retiradas a partir de projetos em AutoCAD, medidas com comandos simples, cujos resultados são inseridos em planilhas e filtrados por métodos diversos de medição.

A parte de custos normalmente é praticada através de composições de serviços. Como isso funciona? É como uma receita de bolo. Digamos que um serviço da obra seja a “execução de paredes de alvenaria com blocos cerâmicos 11,5x19x19cm”. Para cada m² de alvenaria são utilizados insumos. Por exemplo: 27 tijolos mais 0,014m³ de argamassa de assentamento. Ou seja, inserindo a quantidade de alvenaria, vamos ter automaticamente a quantidade de tijolos e de argamassa, por uma multiplicação simples. As composições de serviço normalmente são retiradas de fontes como a TCPO e o Sinapi, e aí mora um perigo que pode comprometer a assertividade e a operabilidade do orçamento: é fundamental estudar os métodos e padrões construtivos de cada empreendimento, alinhar as composições com a realidade do canteiro de obras. Isso reduz as margens de erro e permite a operação do orçamento associado ao setor de compras, por exemplo.

Mas o que o BIM tem a ver com tudo isso?

Em primeiro lugar é importante ressaltar que a utilização do modelo BIM para orçamentação de obras está diretamente ligada à forma como ele é construído. Nesse sentido, é importante levar ao pé da letra o conceito de construção virtual e incorporar os processos construtivos à modelagem. É fundamental também estudar a Estrutura Analítica de Projetos (EAP) do orçamento praticada por cada empresa e entender como o modelo pode atender à ela, ou revisá-la com o objetivo de adotar processos BIM. Se a construtora aplica diferentes composições de chapiscos para estrutura e alvenaria, é importante entender como essas quantidades vão ser extraídas do modelo quando concluído. Por isso é necessário planejar a modelagem, fazer uma gestão BIM.

O uso do BIM associado ao orçamento de obras já é uma prática relativamente consolidada no Brasil. A prática mais comum consiste na extração de quantitativos de obra a partir do modelo BIM. Isso certamente já é um avanço em relação ao método tradicional, principalmente em função da assertividade das quantidades retiradas diretamente do modelo, como também da possibilidade de mapeamento da informação. Através de softwares como o próprio Revit ou o Navisworks, podemos identificar os elementos construtivos que estão sendo considerados em cada quantidade.

É importante frisar, porém, que este processo tem se dado na maioria dos casos de forma não integrada. De maneira geral, o adotado é a extração de quantitativos dos modelo, que são jogados para planilhas que estão desassociadas deste modelo. Enquanto no software BIM altera-se um elemento no modelo e automaticamente alteram-se as quantidades vinculadas a este elemento, no processo adotado isso não ocorre, já que o quantitativo é exportado para outras plataformas não integradas ao modelo, demandando atualizações periódicas e manuais.

Existem softwares BIM (o Vico, por exemplo) que permitem a estruturação de planilhas orçamentárias. Isso faz com que seja possível inserir a EAP de orçamento e as composições de serviços no mesmo programa que lê as informações do modelo, viabilizando a vinculação das quantidades lidas do modelo com informações da planilha de orçamentos, caracterizando um processo BIM.

 

Fonte: Blog da Engenharia