Ter a capacidade de controlar todo o ciclo de vida do projeto de um edifício em tempo real não é mais ficção. O BIM, conceito originado nos anos 1980, mas popularizado só nos anos 2000, permite o armazenamento e o compartilhamento dos dados referentes ao projeto em um único modelo, que pode ser acessado e modificado a qualquer momento por qualquer integrante do processo, mantendo-o sempre atualizado.

Com o BIM, o edifício passa a ser uma entidade, não mais as linhas de outrora. “Parede não é mais bloquinho, é parede com parâmetros. É uma unidade de energia com absorção, reflexão”, ilustra a arquiteta Priscila Castro, supervisora de sistemas do ArchiCad e BIM Expert.

Os modelos gerados pela plataforma BIM são uma construção virtual do objeto arquitetônico. Graças a essas construções disponibilizadas nos diversos estágios do projeto, é possível quantificar, planejar, coordenar e recuperar informações a qualquer momento da vida do empreendimento e, ainda, verificar interferências, testar alternativas de projeto e ensaiar o comportamento do modelo sob a ação de diversos agentes.

O BIM abarca desde a representação visual do objeto, sua geometria até as relações e atributos. “E muda o processo de criação do projeto, onde o conhecimento construtivo passa a ser essencial”, revela Marco Suarez, arquiteto da Idom-Acxt Arquitectos, escritório de arquitetura que adota a plataforma BIM. O processo possibilita a verificação da exequibilidade construtiva das soluções, evitando erros e desperdícios. “O BIM coloca a arquitetura em teste antes da construção”, avalia Priscila.

Para atingir a representação do edifício construído, o arquiteto precisa produzir, cada vez mais, informações relacionadas – projetos de estrutura, hidráulica, elétrica, prevenção de incêndios, acessibilidade, sustentabilidade, planilhas de custo, cronograma etc. “É complexo e altamente improdutivo gerar e compatibilizar manualmente toda essa informação. Os programas BIM ajudam nessas tarefas”, ensina o arquiteto João Ribeiro Cunha, diretor de projetos do escritório de arquitetura Orbi, com experiência na implantação do Revit.

Indicado para o escritório que deseja ter maior controle sobre os seus projetos, o BIM atualiza automaticamente as plantas perante quaisquer modificações em elementos de projeto, reduzindo desperdícios, erros e omissões, proporciona a previsibilidade de custos e desempenho, consentindo maior liberdade e tempo para a experimentação de alternativas de projeto e aprimora os resultados finais.

BIM x vantagem competitiva

Os escritórios brasileiros que já adotam a plataforma estão transformando seu conhecimento em vantagem competitiva. O BIM também está modificando a forma de pensar o projeto e planejar prazos e custos, uma vez que as fases mudaram. “As primeiras etapas demoram mais, pois o BIM demanda a alimentação das informações. Já os detalhes são executados com mais rapidez”, destaca o arquiteto Miguel Aflalo, do Aflalo & Gasperini, que implantou a plataforma BIM em 2005 no escritório.

Segundo Miguel, a adoção ou não do BIM depende do tipo de projeto e de resultado que se deseja naquela fase, e compara o desempenho com o de uma moto, um carro e um avião – sendo o avião a plataforma BIM: a princípio o avião demora mais para pegar velocidade, mas depois que decola ultrapassa os outros dois veículos. Conforme a etapa, pode ser mais vantajoso e rápido usar outro programa. Mas pensando que o projeto pode ter continuidade, a escolha recai para o BIM.

Softwares que conversam (ou não)

Por definição, os programas BIM trabalham com informações associadas ao modelo em 3D do edifício, como uma base de dados. A princípio, o arquivo feito em uma plataforma não conversa com outra – um Revit não conversa com o ArchiCad, por exemplo -, pois a maioria dos programas utiliza formatos próprios de armazenagem da informação. Esta, aliás, é uma das recorrentes reclamações dos usuários BIM. “Os ­softwares devem ser universais. A troca de arquivos deve ser livre e não dominada por uma empresa”, opina Miguel Aflalo.

Para tornar o BIM uma plataforma aberta, em 1994 foi criado o Building Smart, grupo técnico responsável pelo desenvolvimento do IFC (Industry Foundation Classes), um formato de arquivo de dados de arquitetura aberta, uma linguagem comum, utilizada para a troca entre modelos de diversos fabricantes.

“Porém, como em qualquer processo de tradução, pode ocorrer perda de informações. Na nossa experiên­cia verificamos que na tradução para IFC perdem-se algumas informações específicas a cada tipo de programa”, avisa Roberto Klein, consultor de CAD, 3D e BIM. “A melhor maneira de compatibilizar arquivos 3D vindos de softwares diferentes é utilizar um software de detecção de interferências (clash-detection) que consiga abrir vários formatos de arquivos”, recomenda.

Com softwares 2D, a conversa melhora um pouco. Modelos importados de outros programas tipo 2D podem, inclusive, servir de base para construir o modelo do edifício a ser utilizado no projeto final, que poderá então ser medido e parametrizado.

Por outro lado, se um projeto feito em BIM for aberto em programas como o AutoCad, o arquivo perde as características BIM e passa a ser um simples projeto em 2D ou um modelo em 3D sem as informações acopladas.

Programas disponíveis

ArchiCAD

O ArchiCAD, da Graphisoft, pode ser aberto por qualquer projetista que não use o programa, exigindo que o arquivo exportado seja IFC. “O programa BIM mais antigo disponível no mercado, o ArchiCAD é intuitivo de aprender e possui uma base de usuários relativamente ampla, distribuída por todo o mundo”, avalia João Cunha, da Orbi. Segundo o arquiteto, o ArchiCAD possui uma extensa biblioteca disponível e uma maturidade decorrente dos seus anos de experiência e desenvolvimento no mercado. “Como limitações, falta-lhe potência para trabalhar com projetos muito complexos, além do sistema de base de dados ser um pouco mais básico que em programas similares”, aponta João. Tem compatibilidade com softwares de orçamentos, como o Volare e o Orçamento Expresso, e com o EcoDesign, de cálculo energético, entre outros.

http://www.graphisoft.com/br/archicad/

Bentley Architecture

A solução BIM da Bentley Systems é construída sobre a plataforma do Microstation, um programa CAD. Possui suporte para formato IFC. O Bentley Architecture e faz parte de uma extensa plataforma que inclui softwares específicos para estrutura, instalações e modelagem de elementos complexos.

“É um programa de aprendizagem complexa e interface pouco intuitiva, além de ter uma base de usuários pequena no Brasil”, aponta João Ribeiro.

Revit Architecture

Software da Autodesk, o Revit é um dos mais difundidos no mercado, por ser do mesmo fabricante do AutoCad e pela estratégia de vendas da Autodesk.

Lê arquivos gerados nos programas específicos de estrutura (Revit Structure) e instalações (Revit MEP), agilizando a coordenação e compatibilização dos complementares.

Segundo a Autodesk, os diversos formatos de publicação e de exportação possibilitam que as informações criadas e gerenciadas sejam disponíveis em aplicativos de visualização, fornecidos gratuitamente.

“A limitação para trabalhar com arquivos muito grandes, a relativa escassez de ferramentas de desenho e o tempo gasto para criar os elementos da sua biblioteca são as maiores desvantagens do Revit”, opina João.

https://www.autodesk.com.br/products/revit-family/overview

Vectorworks Architect

O Vectorworks, da Nemetschek, é um software BIM e Modelador 3D para arquitetura e design. Possui compartibilidade total com o formato IFC para troca de arquivos com outros softwares BIM.

É uma solução relativamente simples e barata, que tem como vantagem permitir projetar da forma tradicional, como se fosse um programa de CAD convencional.

http://www.vectorworks.net/

Programas complementares

São utilizados para aproveitar a informação gerada pelo modelo BIM e realizar os cálculos necessários aos projetos de edificações, como consumo energético, desempenho térmico, acústico e lumínico, cálculos estruturais, de circulação de pessoas e veículos, entre outros. Funcionam ao ler os modelos criados em plataformas BIM e extrair os parâmetros pertinentes, gerando cálculos específicos segundo a sua finalidade. Exemplos:

Cálculo energético: Autodesk Ecotect Analysis, Autodesk Green Building Studio, IES Virtual Environment, EcoDesign

Cálculo estrutural: Revit Structure, Tekla Structures (utilizado principalmente para fabricação de perfis e elementos metálicos), CSI SAP2000 (para estruturas complexas como represas), CSI ETABS, TQS, CYPCAD

3D ou BIM?

Os programas para fazer 3D na arquitetura existem desde o começo dos anos de 1990, principalmente para produzir imagens finais dos projetos (renders). Aos poucos, os arquitetos começaram a utilizar programas 3D nas etapas iniciais, provando, por exemplo, alternativas de materiais. No entanto, as geometrias produzidas nestes programas não contêm nenhum tipo de informação, e servem basicamente como ferramentas de visualização. Já na plataforma BIM é possível incorporar informações dentro do projeto e extrair dos desenhos os dados inerentes ao modelo, como custo. A grande diferença entre um software de modelagem 3D e um software BIM, portanto, é a sua capacidade de gerar objetos paramétricos. É a parametricidade que garante gerar objetos editáveis que podem ser alterados automaticamente e dar o suporte à plataforma BIM. Sem essa capacidade, o software é só mais um modelador de objetos 3D.

Plug-ins: o que são?

São extensões de programas que podem ser instaladas no software paulatinamente. Podem ser produzidos pelo próprio fabricante do software ou por terceiros. Realizam funções específicas e complementares ao programa original, e tão diferentes quanto:

  • Interoperabilidade com softwares como Excel, Project etc.
  • Cálculo e análises de desempenho energético e sustentabilidade
  • Modelagem de entornos como ruas, pontes, estacionamentos
  • Definição de elementos paisagísticos

Fonte: Revista aU